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4/5/2006
Conheça um pouco do incrível mundo das lentes de contato

Boa parte dos problemas de refração, como miopia e astigmatismo, podem ser corrigidos com lentes de contato. Saiba um pouco mais sobre elas.

Quem usa lente de contato há pouco tempo talvez não tenha idéia de quanta tecnologia existe naquela porçãozinha de material. Os primeiros exemplares, fabricados pelo fisiologista alemão Adolf Eugen Fick (1829-1901), em 1887, eram quase do tamanho do olho, não vestiam bem, eram desconfortáveis e só podiam ser usadas poucas horas por dia. Hoje, a tecnologia não pára de surpreender: algumas são descartáveis, outras corrigem miopia durante o sono e os materiais estão cada vez mais permeáveis ao oxigênio, possibilitando mais tempo de uso.

O número de usuários só faz aumentar. “O custo mais acessível e os avanços tecnológicos estão tornando-as mais confortáveis, seguras e populares”, afirma a oftalmologista Cleusa Coral-Ghanem, responsável pelo Departamento de Lentes de Contato do Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem, em Joinville (SC). Ainda assim, o número de brasileiros nesse mercado é baixo – 2,5 milhões, segundo a própria Coral. Ela aponta como um dos fatores problemas econômicos da classe média. “Outro motivo do não crescimento é a facilidade e segurança da cirurgia refrativa”, acrescenta. Para se ter uma idéia, segundo o periódico americano Contact Lens Spectrum, os Estados Unidos contam com 36 milhões de usuários.

As lentes de contato costumam entrar em cena por dois motivos. Ou o paciente não quer usar óculos ou seu problema exige o uso terapêutico das lentes, como é o caso de quem tem uma doença da córnea chamada ceratocone. A necessidade ou não de usá-las é avaliada caso a caso, porque o quanto se enxerga é uma sensação subjetiva. “Geralmente, um indivíduo com até 1 grau de miopia ou até 0,75 de astigmatismo não precisa usar”, pondera o oftalmologista Adamo Lui Netto, da Santa Casa de São Paulo.

Aula de Física

24 milímetros – essa é medida da visão perfeita. E diz respeito à distância entre a superfície da córnea, que fica na parte externa do globo ocular, e a retina, no fundo do olho, onde a imagem se fixa. Se tiver um único milímetro a mais, os feixes de luz que entram através da pupila – e que formam a imagem – se encontram antes da retina. Resultado: a imagem de objetos que estão longe fica embaçada. Para enxergar direito, o míope vai usar lentes de formato côncavo que são divergentes, ou seja, elas dispersam os feixes de luz que, aí sim, vão se encontrar onde devem.

Se essa distância córnea-retina for menor, a imagem vai se formar depois da retina – temos hipermetropia. Nesse caso, a solução é utilizar uma lente convexa, que faz os feixes de luz convergirem e trazem a formação da imagem para a retina. Grosso modo, podemos dizer que míopes e hipermétropes utilizam lentes esféricas. Já o astigmata, que não consegue distinguir dois pontos próximos, vai precisar de uma lente com várias curvaturas (tóricas) para melhorar a visão, que é ruim tanto de perto quanto de longe. “Seu olho tem o formato de uma bola de futebol americano”, explica a oftalmologista Luciane Moreira, professora da Faculdade Evangélica do Paraná, em Curitiba (PR). Esse tipo de lente precisa estar exatamente no lugar para proporcionar a visão perfeita. Por isso são conhecidas por terem marcas que vão orientar o paciente a colocá-las no lugar mais apropriado. “A lente, por causa da curvatura, vai se posicionar corretamente, mas isso demora mais ou menos meia hora”, explica Coral.

Há quatro grupos de materiais: rígidos, elastômeros de silicone, gelatinosos e híbridos gelatinosos. “Dentre eles os mais utilizados são os gelatinosos e os rígidos gás-permeáveis”, ressalta ela. Plástico, resistente, e de excelente transparência óptica e umectabilidade, o polimetilmetacrilato (PMMA) reinou absoluto entre as rígidas até aparecerem os materiais gás-permeáveis que ganharam público por permitirem passagem de oxigênio. Os últimos são feitos a partir de PMMA, silicone e fluorcarbono e, conforme sua composição, são mais permeáveis.

Conhecidas pelo conforto de uso, as lentes gelatinosas podem ser hidrofílicas ou de silicone-hidrogel. As primeiras podem conter de 38 a 79% de água. “Isso as torna muito confortáveis”, explica Coral. Já as gelatinosas de silicone-hidrogel são bastante permeáveis ao oxigênio e podem ser usadas por períodos prolongados. “Elas podem permanecer nos olhos até um mês sem necessidade de serem removidas para dormir”, acrescenta.


No consultório

Os médicos são unânimes ao recomendar que a prescrição das lentes – rígidas ou gelatinosas – seja feita por oftalmologistas. “Muita gente acha que compra um produto – e aí, prefere ir até a ótica, onde as lentes são mais baratas que no consultório”, diz a oftalmologista Neusa Vidal Sant’Anna, que é voluntária no Setor de Lentes de Contato da Universidade Federal de São Paulo, em São Paulo. Ela acrescenta: “O preço do consultório inclui uma porção de exames que serão feitos durante a adaptação, que é um acompanhamento feito de perto por um ano.” Depois disso, as consultas se tornam semestrais ou até mesmo anuais.

Mas nem todo mundo pode – ou deve – usar lentes. “Em primeiro lugar, o paciente tem de ser capaz de entender a importância da rotina de assepsia da lente”, diz Neusa Vidal Sant’Anna. “Elas são contra-indicadas para pessoas com problemas mentais, por exemplo.” As crianças são outro público difícil, por não conseguir administrar sozinhas a limpeza das lentes. Algumas profissões inviabilizam a prescrição. Já imaginou um marceneiro que trabalha constantemente no meio da serragem? As chances de se acumular poeira na lente são muito maiores e, com isso, aumenta também a possibilidade de infecção.

O oftalmologista Adamo Lui Netto acrescenta: “Pessoas com alterações da superfície do globo ocular, da córnea, da pálpebra ou conjuntivite alérgica também ficam de fora”. Esses indivíduos podem piorar os problemas com o uso da lente. Quem tem alergia, que causa irritação nos olhos, também deve passar longe desse tipo de correção. Pelo menos até que a alergia seja tratada. “Há fortes indícios de que coçar o olho com freqüência pode causar o ceratocone”, diz o oftalmologista Adamo Lui Netto, da Santa Casa de São Paulo.

Também é imprescindível a orientação que o paciente vai receber no consultório. “Os usuários de lentes de contato devem seguir as recomendações e respeitar o período de uso e troca de suas lentes de contato”, reforça Coral. O problema é que nem sempre isso acontece. Num estudo realizado no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, em 2004, com profissionais ligados à medicina, 54, 2% dos entrevistados não se consideraram bons usuários mesmo tendo recebido boa orientação. Segundo Paulo Ricardo de Oliveira, um dos autores da pesquisa, os voluntários apontaram a limpeza inadequada e a falta de observância das orientações médicas como os principais motivos desse julgamento.

Se profissionais da saúde, que possuem mais informações sobre as más conseqüências do descuido, não se seguem as prescrições à risca, que dirá o público em geral. Esse tipo de (mau) comportamento pode ser desastroso. “As conseqüências vão de uma simples irritação no olho até uma úlcera de córnea”, comenta Lui Netto. Ao primeiro sinal de desconforto, recomendam os especialistas, o melhor a fazer é tirar as lentes e ficar sem elas por, pelo menos, um dia. Se no dia seguinte a irritação persistir, recomenda-se procurar o oftalmologista.

Há ainda outros fatores a serem observados: baixa na acuidade visual, dor ou ardor, vermelhidão (hiperemia), lacrimejamento excessivo e sensação de areia nos olhos. “Ao aparecer um desses sinais, é preciso voltar imediatamente ao consultório”, enfatiza Lui Netto. O que na hora pode parecer um fato sem importância pode evoluir sem muito alarde. “Quando a lente não é limpa de maneira adequada, acumulam-se proteínas e outras substâncias que podem causar uma infecção que só incomodará meses depois”, alerta Neusa Vidal Sant’Anna. Fica o lembrete: rigor na higiene das lentes e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Enquanto você dorme

Para aqueles que não podem ou não querem enfrentar um cirurgia refrativa para acabar com a miopia, existe a ortoceratologia, também chamada de ortoceratoplastia. Trata-se de uma terapia que corrige temporariamente miopias e astigmatismos por meio de lentes usadas enquanto o paciente está dormindo. São lentes específicas, com curvaturas especiais para remodelar o formato da córnea, que no míope é mais elíptica, deixando-a mais esférica. O efeito, no entanto, não é definitivo porque, durante o dia, quando o indivíduo está sem as lentes, as células da córnea migram para suas posições originais. E aí, é preciso recolocar a lente durante mais uma noite de sono.

A técnica pode ser aplicada em pessoas com até -4,5 de miopia e 1,5 de astigmatismo. “É indicado para pessoas que não podem usar as lentes de contato convencionais com segurança e conforto no trabalho ou na prática de esportes e para as que não podem ser submetidas à cirurgia refrativa por terem a córnea muito fina”, enumera Cleusa Coral-Ghanem. A prática no consultório começa a apontar o método como um meio eficaz de tratar crianças e adolescentes com miopia de progressão rápida. “Ainda não há literatura que comprove isso, mas tenho em meu consultório um paciente de 10 anos que conseguiu diminuir o ritmo da miopia”, comenta Luciane Moreira.

Fonte: Revista 20/20 por Karina Yamamoto



           


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